A correria dos filhos…

Ando refletindo muito sobre o que se tornou a infância. Penso na minha rotina lá atrás. Primeiras lembranças são de ir a algum parque com a minha mãe e meu irmão pela manhã, comer uma comidinha boa no almoço e ir para a tia Lilian a tarde, uma escolinha minúscula e maravilhosa. Na volta deliciosos episódios de sítio do pica pau, talvez alguma novela das 6 (nao me marcaram, com exceção de Meu Pé de Laranja Lima), banho, jantar e cama. A colcha laranja do quarto em que dormia com meu irmão nunca me saiu da cabeça. Por vezes brincávamos no térreo do prédio que só tinha uma balança. O prédio tinha muitas crianças. Foi uma infância felicíssima!

Crescemos, fomos sócios por mais de um ano do clube dos estudantes de medicina, não me lembro se era da Escola Paulista ou da Pinheiros. Eu tinha 7, 8 anos. Lá praticávamos esportes, eu nadava, e tinha uma aula divertida de ginástica. Logo depois fomos para o Paineiras, eu fazia ballet, ginástica olímpica (só fiz uns 6 meses) e natação e depois almoçava e ia para o Sao Luis. Mais para frente começaram os treinos da equipe de natação e eu tive que sair do ballet. Treinava 2h30 por dia. Ficava tão cansada. Achava puxado, mas não tinha trânsito, sabia que chegaria na escola. A tensão de hoje não existia.

Ontem fui buscar minha filhota na escola. Ela estuda até as 3h15, almoça na escola e tem 6 anos. Vi um garotinho desesperado “Para onde eu tenho que ir, garagem ou lá fora, estou preocupado, minha aula de natação é às 15h30.” Me cortou o coração, de verdade, estas crianças de 6, 7 anos cheias de atividade e já com aflição de perder a hora. Não excluo minha filha deste grupo, ela faz ballet e piano, e sim, acorda correndo, tem tempo cronometrado pra tudo. Resolvi este ano deixá-la mais solta, senti o stress infantil rondando minha casa. Ela estava arredia, chorava e ficava pensando que atividade extra teria amanhã. Não vou privá-la de aprender a tocar um instrumento, dançar, praticar um esporte, há uma linha tênue entre o excesso de atividades e a chance de desenvolver um talento ou apenas ser uma pessoa com diversas habilidades. Aproveitei todas as chances que tive na vida – dancei muito, aprendi inglês, francês, estudei muito também fora da escola.

Sempre ocupei cada janelinha de tempo do meu dia. Até hoje sou assim – fotos, joias, o blog, as crianças, o pilates, o jazz, a ginástica, cozinhar, ainda tenho o resquício da adolescência de querer abraçar o mundo. Mas às vezes dói, mesmo, nervosismo e cansaço são sinais claros da hora de desacelerar. E temos que observar nossos filhos, eles também sofrem de exaustão.

Como fotógrafa faço muitas fotos de criança, tenho de verdade um pé no mundo deles. Me sinto meio lá, meio cá. Me aproximo deles com facilidade. E com esta sensibilidade, vejo muitas vezes crianças exaustas, são aqueles que pouco sorriem, ficam de braços cruzados, se irritam por qualquer coisa. Eles estão cansados, precisando de carinho, de colo de mãe, e não de mais aulas para se tornarem grandes esportistas, ou falarem 10 línguas. São crianças que mal tem tempo de brincar…

A infância é muito curta. Com 15, 16 anos, já ficou para trás. Criança tem que correr, pintar, se sujar, correr atrás de bicho, nadar. Não tem que ir a todas as festinhas do mundo, não tem que fazer aula de toda e qualquer atividade que tiver por perto. Sou contra a maior parte dos preceitos da Mãe Tigre. Para quem não leu o Hino da Mãe Tigre, ela é uma maluca americana/chinesa que se acha a “tal” da disciplina e oprimia as filhas para elas serem grandes concertistas de piano e violino. Vale a pena ler para fazer bem diferente dela.

Exageros a parte, temos que oferecer oportunidades, dar a chance de nossos filhos serem adultos responsáveis e habilidosos, nada de deixar tudo para quando crescerem, aprender uma língua por exemplo é comprovadamente mais fácil se ela for inserida antes dos 7 anos. Mas não podemos querer competir com o vizinho para ver qual filho é mais ocupado. Outro dia em uma conversa, uma mãe despejou sobre mim as incríveis quantidades extras de atividade que suas super filhas fazem. Ela está mais para mãe tigre que eu… Não a invejo, tem muitas famílias que não tem tempo de serem felizes, porque estão todos muito ocupados. E mal percebem como é bom estar com seus filhos sem nenhuma super atividade programada.

E viva o caminho do meio… às vezes a gente sai um pouco dele, mas o importante é sempre tentar voltar. Com paciência, com harmonia, com carinho, este sim, a melhor vitamina para nossos filhos crescerem valorosos e felizes, a gente chega lá.

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